• GM Rhaekyrion

Vício: O Preço da Liberdade

Atualizado: 6 de Dez de 2020

— Você fez um excelente trabalho. Gosto de poder confiar em você, saiba que será muito bem recompensada por seus esforços. — a mulher sorrir deleitosa. — Está tarde, pode se retirar. Hoje a coordenadora dos corredores vai dormir cedo.


Pétala encarou os imensos olhos castanhos da Diretora Bartha com atenção, encontrou as entrelinhas necessárias e assentiu com um balançar de cabeça.


— Precisará da enfermaria?


— Não.


— Ótimo. Terá um longo tempo de descanso.


Bartha caminhou lentamente pela sala vazia, parou diante da janela de bordas curvas, encarando a paisagem além do vidro com uma expressão satisfeita. Abraçou-se despreocupada, trocando o peso de uma perna para outra, acentuando as curvas de seu quadril. Pétala segurou a lividez. A beleza de Bartha a hipnotizava e essa influência já a levou a beira da loucura.


— Posso me retirar?


— Sim, pode. Mas antes que vá, tenho algo para você.


Pétala segurou a tontura, seu braço latejava infernalmente, sabia que teria uma noite longa pela frente, mais uma consequência de seus “trabalhinhos”. Pensava que talvez fosse a hora de encerrar essa parceria.


Mas não posso”, pensou. Bartha não costuma receber negações, seus pedidos são ordens e quem não as cumpre não sobrevive para contar a história. Exceto Pétala.

A diretora retira de uma pequena caixa de uma gaveta e antes que Pétala a segurasse, já sabia qual o conteúdo.


— Vai ajudar com as dores.


Em silêncio segurou o presente, agradecendo baixinho e o colocando dentro do bolso do casaco. Bartha deu a volta na mesa e se adiantou em abrir a porta da sala. Uma vez no corredor Pétala encarou a mulher mais uma vez e sem avisar a diretora beijou sua testa, desejando um boa noite cheia de carinho.

Já em seus aposentos, no escuro e entorpecida pelas dores, a jovem mutante chorou.


Soluçando compulsivamente, adentrou o banheiro, se desfez das roupas, deixou a água quente escorrer ao piso em um som de chuva gostoso e se encarou no espelho. Odiava seu corpo, o que era e as travas que a impediam de ser o que tanto desejava.


Sentiu-se uma idiota por chorar, por ser tão fraca. Obrigou-se a se recompor, adentrando o box repleto de fumaça, levando corpo e alma. As feridas latejaram horrivelmente, o preço de sua busca por outro fugitivo a rendeu um corte considerável no antebraço direito, por onde o sangue escorria lentamente. Deter um mutante espinhento deu nisso.


Normalmente rumaria a enfermaria, onde teria um tratamento adequado, mas optou por cuidar sozinha de si. Precisava desesperadamente de sossego. “E ver Dandara”, pensou amargurada.


Usou o sabão para limpar-se, principalmente a ferida e saiu do banho enrolada desajeitadamente em uma toalha. Sentou-se na privada e com cuidado fez um curativo. Por sorte não precisava de pontos.


Braço enfaixado, a dor se espalhando até sua cabeça, vestiu uma bermuda folgada e uma camiseta, se jogando na cama junto a caixa de presente. Abriu-a e segurou a seringa, ponderou a dose em uma colher, aqueceu a substância, sendo invadida pelo cheiro delicioso daquela droga e aplicou precisamente.


Dentro de segundos a heroína aliviou as tensões, dores e desconfortos. Pétala deitou-se nos travesseiros sorrindo, encarando o teto escuro como quem mira uma pintura artística. Entre as vigas viu a liberdade que jamais alcançaria.


Em dado momento adormeceu, encolhendo-se em posição fetal, alheia a qualquer som ou cheiro que se aproximava. Quando a heroína a tocava, os problemas ficavam distantes, as amarras se desfaziam, podia ser livre.


A ilusão durava alguns minutos, jamais conseguiria transformá-la em realidade, mas as pequenas fugas proporcionadas pela droga bastavam.


Desejava mergulhar nesse sonho para sempre, como gostaria de nunca acordar. A contrariando, o despertar vinha, acompanhado por uma dor de cabeça dos diabos e um enjoo feroz. Um preço bem acessível para a sua breve liberdade.


A diretora Bartha tinha lhe dado o bastante para se manter alucinando por três dias e estava disposta a enfrentar sua “folga” em outro planeja imaginário. Pétala não ouviu a porta abrindo, mesmo tendo a audição aguçada, nem sentiu o cheiro da visita.

Mãos geladas a seguraram pelos ombros, sentou-se a contragosto, sorrindo. Piscou diversas vezes, levou uma bofetada no rosto, mas nada a acordou. Um beliscão na coxa e um líquido quente espalhando-se pelo músculo.


Instantes depois a adrenalina consumiu sua letargia, a trazendo de volta ao Instituto, no seu belo quarto e diante da última pessoa que imaginaria encontrar naquela noite.


— Sabia que não pararia.


A jovem de longos cabelos lisos castanhos, pele oliva e olhos cor de mel, se afastou e caminhou em direção a janela, que estava aberta, por onde um vento fresco entrava.


Os aposentos de Pétala tinham a comodidade que nenhum outro possuía. Uma grande cama de casal, uma escrivaninha larga de mogno, cadeira acolchoada diante de um computador antigo, mas usável. Guarda-roupa grande, um banheiro só seu, tapetes felpudos pelo cômodo, uma janela ampla, com uma pequena sacada, dando vista aos jardins exuberantes dos fundos do Instituto. Tinha um frigobar só seu, prateleiras recheadas de livros, criava uma iguana e não precisava dividir qualquer elemento da sua residência com outros seres humanos.


Eram privilégios concedidos por Bartha, que também se estendiam a refeições especiais, ausência de inspeção do quarto, horário ilimitado para rondar as acomodações da escola e o direito de furtar comida sempre que quisesse.


Gostava de considerar esses “mimos” como liberdade, tinha acesso ao que ninguém mais possuía. Era o braço direito da Diretora, os demais não ousavam contrariá-la, nem ao seu pequeno grupo de escudeiros.


Os privilégios inflavam seu ego, reduziam os anseios, escondiam a amargura e calavam os sonhos de ver o mundo além dos muros que a cercavam, limitando seu “conforto”.


— O que está fazendo aqui? E o que foi isso que me deu?


— Não importa. Nem deveria ter vindo.


— Como conseguiu chegar aqui?

Dandara bufou e Pétala ouviu o milésimo de segundo que seu coração descompassou. Conseguia ouvir os passos de quem caminhava há dois andares abaixo, o leve bater de asas das corujas e o rastejar baixinho dos insetos na parede.


— Foi um erro. — disse Dandara de repente, passando por Pétala e sendo parada com um abraço desajeitado. — Solte-me! Eu não vim aqui para isso! — esperneou.


— Então, qual foi seu motivo?


Dandara desviou o olhar, mordeu o lábio inferior e Pétala ouviu outro descompassar, acompanho pelo cheiro característico da oxitocina. Sorriu.


— Eu sou muito burra.


— E linda. — completou Pétala, mantendo Dandara em seus braços.


— Como assim? Está concordando que sou burra?


— Não disse isso.


Dandara abriu os lábios, tornou a fechá-los e a empurrou com todas as forças. Escorregou o olhar pelo corpo de Pétala, parando em seu braço ferido.


— Sabia. Você não parou as perseguições. Sabia!


— Espere! — Pétala virou um pardal num piscar de olhos e puxou a blusa de Dandara, que começava a desaparecer, exibindo seu poder. Voltou a forma humana antes que a garota chegasse à porta, impedindo sua passagem. — Foi preciso...


— Preciso? Você é uma de nós, Pétala! Quando vai parar de nos perseguir?! Quer viver aqui para sempre?


Pétala abaixou a cabeça envergonhada. Sabia o que precisava fazer, só não tinha coragem.


— Sabe que não vamos sobreviver lá fora. — tentou argumentar.


— Não vamos sobreviver aqui! Enquanto continua refém dessa merda — apontou a seringa sobre a cama. — será a cachorrinha da diretora para sempre.


Dandara se aproximou, a empurrou e segurou a maçaneta. Pétala ouviu as engrenagens girando, o trinco cedendo e as dobradiças rangendo. Precisava fazer uma escolha...


— É a última vez que falo com você. Não farei parte do seu vício. Ou escolhe os seus ou adeus, Pétala.


O desespero a tomou tão voraz quanto os instintos animalescos que sua mutação carregava. Viu Dandara sair do aposento, deixando a porta aberta e um coração dilacerado.


Como conseguiria enfrentar o vício, enfrentar Bartha? Não tinha forças, não podia. Lembrou da Sala Branca, dos primeiros dias dentro daquele lugar, de como precisou se dobrar e da única solução que achou para sobreviver.


As coisas não eram tão simples como Dandara mencionava, não podia chegar na sala da diretoria e decreta “demissão”. Existiam critérios perigosos para rebeldia, experimentou as consequências dessa luta com dor e sangue. Mas...


Tinha um preço para o seu desejo, seria capaz de pagá-lo?

Ciente de sua loucura, Pétala virou um belo gato preto e correu pelos corredores escuros do Instituto de Ensino Especial para Mutantes sem fazer barulho. Desceu as escadas agilmente e parou a garota invisível com uma mordiscada na perna.


— Aí! Sua... — sussurrou Dandara. — Não quero ver você.


Pétala voltou a mordiscá-la, ganhando um empurrão com o pé. Voltou a forma humana e falou:


— Fiz minha escolha.


Dandara reapareceu lentamente a sua frente, a encarando descrente com uma mão no quadril.


— Não acredito em você.


Pétala sorriu, aproximou-se e segurou as mãos frias de Dandara. Encarou seus belos olhos castanhos por alguns segundos, se permitindo mergulhar na beleza daquelas órbitas doces e, ainda assim, recheadas de força.


— Conheço uma saída, mas vai precisar me esconder. — disse Pétala.


— Muito engraçado. — Dandara mostrou a tornozeleira. — Impossível esconder nós duas.


— Mocinha, esqueceu quem tem a chave dessas coleiras? — Pétala envolveu Dandara pela cintura. — Vai comigo?


— Quer dizer que a chave dessa coisa... — Dandara a encarou surpresa.


— Sempre tive.


Depois de um soco bem dado, Dandara apoiou as mãos no pescoço de Pétala e sem demoras a beijou. Foi como respirar de novo. O gosto adocicado de sua língua, seu toque suave, causavam arrepios deliciosos no baixo ventre.


Pétala soube, naquele instante, que a amava e faria o impossível para viverem juntas e onde a verdadeira liberdade existisse.



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© 2020, criado e editado por Clara Ciríaco.

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