• GM Rhaekyrion

Um Conto no Escuro: Vivendo na Caverna

Nasci em uma caverna no meio da floresta de Noyrme, no sul de Foerma. Era aconchegante, apesar do clima gélido. Suas paredes de pedra continham a decoração de um lar. Cresci rodeado de plantas e animais, ouvindo minha mãe cantarolar cantigas milenares. Sentia o cheiro das frutas frescas ao amanhecer e podia caminhar livremente até o rio mais próximo, sempre acompanhado dos animais que adoravam minha mãe.


Ela é a Senhora da Floresta, sua protetora. Um dia desejei ser quem ela é e mal sabia o que o Destino tinha me reservado.


Curioso lembrar desse passado. Pensei que tinha esquecido o mundo de onde vim. Não é tão fácil assim viver isolado, na época não pensava desse jeito, me sentia feliz e privilegiado, principalmente quando minha mãe contava como o mundo é cruel e injusto. Ainda acho o mundo injusto e realmente cruel, mas tenho liberdade de escolha. Negar a alguém o conhecimento sobre as coisas por mero medo do sofrimento, não o torna menor ou nulo.


Esse foi o erro cometido por minha mãe.


Culpa dela? Boa parte é, mas a maior culpa dou a sociedade tão bem planejada e dita civilizada. Quando existe condição para os sentimentos, eles se tornam apenas uma obrigação obsessiva. Dizer que as mães devem proteger suas crias de tudo e de todos, as tornam condicionadas a se cobrarem a isso.


Sofri por ser poupado de aprender com meus erros e hoje me sinto um tolo quando me decepciono. Frustrado por não conseguir consertar certos aspectos da minha vida. Entretanto, nem tudo foi ruim, haviam momentos bons.


Tulipa, a Raposa Guardião, era a minha amiga e os pássaros do frio, que vinham diariamente nos visitar. Alces, cervos galhudos, lebres da neve. Era uma vida doce, tenho de confessar, coberta por uma paz única e que nunca mais desfrutarei de novo.

A floresta era a minha vida e á medida que fui crescendo descobri que não era um humano comum. Comecei a entender a razão de ouvir os animais, das plantas falarem comigo e de como nunca conseguia me perder. Uma vez despertado meus dons, minha mãe se prontificou a me ensinar.


Ela trocou os livros de contos de fadas pelos de feitiços, constatou que eu era um feiticeiro e tinha herdado seus dons. Foi assim que aprendi que sou um druida, o que faz um e qual a minha razão nessa vida. Era o último homem da minha classe, o que carregaria a herança de nosso sangue, mas estava contando com um futuro incerto demais.


Aos onze anos adoeci de uma gripe terrível. Não consigo lembrar como começou, apenas me senti indisposto, com muito sono e resolvi manter atividades mais brandas durante o dia. Costurei alguns lençóis, fiz duas capaz com peles e cortei os legumes para o almoço, mas a comida me enjoou quase imediatamente após a sua ingestão e antes que me desse conta estava deitado, suando e vomitando qualquer coisa que me fosse colocada na boca.


Dois dias depois manchas vermelhas apareceram por todo meu corpo, deixando o oliva de minha pele com marcas arroxeadas semelhantes a hematomas de impacto. Sentia a dor mais intensa que já passei na vida, era difícil viver na minha pele e não importava o que minha mãe fizesse, continuava com febre e muito doente.


Lá pelo quinto dia acreditei que morreria. Estava com os lábios inchados, a língua queimando e os testículos tão inflamados, que atingiam meus pulmões, respirar causava dor.


Vi minha mãe chorando. Foi a pior cena que já presenciei, nada do que passei se compara ao desespero que me acometeu quando vi a mulher que me deu a vida, quem sempre foi uma muralha de proteção, se debruçar sobre uma cama, aos prantos, completamente indefesa.


— Mina, por favor, cure minha criança. Eu a ofereço qualquer coisa. — Ela sussurrava aos pés da cama baixa, o corpo curvado sobre os lençóis que me cobriam e as mãos estendidas sobre a minha barriga.


Quis a tranquilizar, quis chorar junto a ela, mas uma paralisia me deixou ali, apenas a encarando, incapaz de reagir.


Adormeci no sexto dia, mergulhando em um sonho esquisito, que me levaram aos braços de uma jovem mulher, de cabelos rosados e o corpo verde feito a seiva das árvores. Ela sussurrava para mim que tudo ficaria bem, seu cheiro é como o campo de lavanda e seus olhos exalavam a pureza, vinda feito o frescor da primavera ao sorrir.


Abracei-a fortemente, para mim ela era a Deusa da Fertilidade e da Natureza, ela era Mina, e crente de que estava protegido, apenas me entreguei.


Na manhã do oitavo dia acordei curado.


A sensação foi a mesma de uma boa noite de sono. Todo o tempo de angústia pareceu um pesadelo e eu abri os olhos em uma manhã úmida e fresca, embalado pelo som da chuva. Minha mãe dormia aos meus pés, totalmente exausta e o ambiente cheirava a chás de cura e doença. Tentei me levantar sem acordá-la, mas despertou assim que afastei as cobertas.


— Saéry, meu menino?


— Estou aqui, mãe.


— Meu menino! Ah! Meu menino! Como se sente? Não se levante, eu busco para você.


Ela correu para ao meu lado, me abraçando e me pondo deitado, mas a recusei.


— Estou bem agora, mãe. Preciso andar um pouco.


— Mesmo? Sente-se melhor?


Confirmei com a cabeça sorrindo e ela se desmanchou em lágrimas ao me abraçar. Apertei-a contra mim, agradecendo pela dedicação e cuidado.


— De forma alguma, meu pequenino. Sou sua mãe e sempre o protegerei.


Ficamos assim por mais um tempo, apenas sentindo o corpo um do outro e o cheiro gostoso que ela emanava dos cabelos. Depois que o pranto cessou, nos encaramos e ela se levantou sorrindo radiante, lavando as sensações ruins. Estendeu-me a mão e eu a acompanhei.


— Vamos comer alguma coisa e depois vamos a cachoeira agradecer a Deusa. Mina o salvou.


— Sim. Eu a vi, mamãe.


Seu rosto expressou a mais profunda surpresa, mas quando a contei do sonho era como se sempre esperasse que assim o fosse.


— Mina é a sua protetora, meu pequeno. Nunca a abandone, ouviu? Ela olha por você, porque seu futuro é grandioso e ela será sua guia.


Senti um arrepio delicioso quando ouvi suas palavras, com o pensamento de ser um filho de Mina. Confirmei com a cabeça, crente ter descoberto a verdadeira razão da minha vida, mas não esperava o que viria.


Não esperava ir para a Universidade de Foerma, pronto para aprofundar meus estudos na feitiçaria, muito menos conhecer Kalyope e depois que a elfa se tornou parte da minha existência as coisas se tornaram uma loucura.


Um Conto no Escuro: Vivendo na caverna (Foto: pinterest - autor desconhecido)

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© 2020, criado e editado por Clara Ciríaco.

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