• GM Rhaekyrion

Prepare-se Para Muitas Batalhas no Livro O Navio Arcano

Atualizado: 2 de Out de 2020

Fazia algum tempo que procurava por livros de fantasia que me envolvessem intensamente. É muito difícil achar obras fantásticas com mais representatividade feminina, principalmente as escritas por autores masculinos. Então, ficava arredia quando surgia um novo nome na capa e pensava: “Será que esse vai ser diferente?”. Por sorte dei chance a Robin Hobb e confesso que estou totalmente apaixonada pela escrita dessa mulher.


Com um enredo carregado de fantasia no seu mais alto nível, Robin nos leva para o mundo dos mercadores e marinheiros. Apresentando uma política muito semelhante ao que, no passado, viveu muitos dos países pós feudalismo. Entretanto, ao invés de navios de madeira negra e velas brancas enormes, ela oferece madeira arcana e navios-vivos. Sim, vivos. Com personalidade e a aprendizagem de seus capitães acumulada em seus interiores.


O livro, O Navio Arcano, vem abordando desde a visão das famílias de mercadores tradicionais, que sofrem com uma eminente mudança na economia, até os piratas que afligem os “cidadãos de bem”.


Os personagens encantam em O Navio Arcano


Prepare-se Para Muitas Batalhas no Livro O Navio Arcano. (Foto: GMRhaekyrion)

Pela visão do capitão Kennit, que é um pirata muito famoso e deseja governar seu “povo” e se sobrepor em poder, acompanhamos a lábia, inteligência e vigor que usa para conquistar seus sonhos. Ele almeja ter um navio-vivo e com ele dominar a costa mercante inteira.


Kennit foi um misto de ódio e empatia a cada parágrafo, dotado de uma arrogância cítrica, ele percorre seus devaneios com lábia e esperteza. Pelos olhos azuis desse pirata, você verá a riqueza das lendas, mitos e magia rodeada nas terras afastadas e pouco frequentadas desse mundo incrível.


Outro aspecto muito interessante, enriquecedor e intenso, é sobre a escravidão. Senti-me inteiramente angustiada, era como se eu estivesse ali dentro, vendo aquelas pessoas serem acorrentadas, presas e acumuladas num porão de navio, aos montes, feito feno.


Muito sutil, ouso dizer, Robin resgata a escravidão de modo bem simples: trabalho sem pagamento. Exibindo a forma rápida do ser humano deixar de enxergar os demais como iguais e passar a encará-los como mercadoria apenas pensando nos lucros. E o que mais me deixo intrigada foi (talvez aqui seja apenas interpretação) que não importava a cor da pele, qualquer um podia ser escravo e o que o diferenciava eram tatuagens marcadas com o nome ou o símbolo dos donos, ou do Sátrapa, que é o “rei”.


Os nomes para a religião, monarquia, hierarquia política são inspiradores, fácil de acostumar e simples de entender. A autora consegue mergulhar sua mente naquele universo como se tivesse existido de fato, te faz participar inteiramente do meio. Fluido de ler, simples. Robin tem a dose perfeita na escrita, duvido não se apaixonar por suas frases e seus personagens, não importa quem.


O mundo é tão real que você quer viver nele


Prepare-se Para Muitas Batalhas no Livro O Navio Arcano. (Foto: GMRhaekyrion)

Vilamonte é o ambiente principal dos acontecimentos, é a cidade mercante mais tradicional e onde a maioria dos personagens vivem, ou passam por. Nela estão acontecendo mudanças na política e na economia, que afetam as famílias tradicionais; uma delas é a chegada dos escravos e a diminuição das funções da mulher no mercado como um todo. Apresentando justamente a transição de uma espécie de igualdade para o patriarcado, vivido mais sofridamente por Ronica Vestrit, esposa de Ephron Vestrit, um mercador dono do navio-vivo Vivácia, que ainda não despertou.


Ronica é uma mulher muito forte, determinada, de personalidade firme e com a responsabilidade de gerir os negócios da família enquanto seu marido viaja para comprar e vender mercadorias. Com a pena afiada para os números, Ronica se vê em crise quando Ephron cai doente e Vivácia passa a ser comandado pelo genro, Killy Porto, casado com a filha mais velha de Ronica, Kreffa Vestrit, de Calcede, uma cidade escravista. Killy não entende os costumes da família Vestrit e suas ações causam um vendaval a matriarca, que se vê perdida diante da ignorância de Killy.


Althea Vestrit, filha mais nova de Ronica, é a minha personagem favorita e sua posição determinada em conquistar Vivácia derradeiramente prendem meu fôlego a cada segundo.


Criada a bordo do navio pelo pai, ela estava destinada a herdar Vivácia e com ela navegar as águas densas das rotas mercantes, quitando a dívida da família e trazendo riquezas, mas uma mudança de planos no testamento de Ephron deixa Althea em maus lençóis. O que ela planeja para conseguir o que deseja é surpreendente e completamente apaixonante, gostaria de ter metade da garra dessa menina. Ela veio pra provar derradeiramente quem é e que vai chegar onde quer, não importa o obstáculo. Pelos olhos de Althea me sinto representada. É raro ter personagens como ela em histórias de fantasia, então, foi amor a primeira lida.


Não existe história boa sem um bom drama


Prepare-se Para Muitas Batalhas no Livro O Navio Arcano. (Foto: GMRhaekyrion)

Bem apimentado com pitadas de romance sutis, desavenças emocionais e conflitos familiares, O Navio Arcano passa a profundidade das relações humanas, tanto entre famílias, como o significado social das ações e comportamentos. Com cenas eróticas bem pinceladas, muito equilibradas e bem escritas, Robin consegue entrelaçar esses momentos de “nada” com o grande enredo principal sem perder a atenção ou a paixão pela obra. Cada cena tem um motivo de ser e representa um fio da enorme teia. Foi outro ponto que adorei.


Além da visão humana, há também as serpentes marinhas, que buscam pela Aquela Que Se Lembra, desejando retomar os tempos de glória e fartura. Sussurea é uma delas, que segue o líder da maranha, tentando encontrar Aquela Que Se Lembra e recordar dos tempos de grandiosidade dos seus.


Muito mistério envolve a viagem dessas serpentes, que culminam num final surpreendente. Elas, ao ver dos humanos, são pragas e seguem os navios de escravos em busca de alimentar-se dos corpos mortos jogados pela amurada. É curioso ler a visão de Sussurea e depois de Kennit, por exemplo, mostrando dois lados completamente diferentes aos comportamentos e sentido de existir desses seres. Aqui vai outro tópico que me deliciei e que me deixou bastante curiosa e cheia de suposições interessantes a respeito dos tempos antigos falados por esses répteis.


As lendas sempre são envolvidas pelo medo


Por fim, o quesito que mais desejo ler nos próximos livros, é sobre os Ermos Chuvosos, um lugar de acesso restrito, cheio de especiarias exóticas ditas mágicas e um berço de lendas, que são trancadas a sete chaves pelos mercadores antigos de Vilamonte.


Só pelo fato de haver magia nos moradores dos Ermos eu já me derreti. Eles são os ofertantes da madeira arcada, que compõe os navios vivos e artefatos mágicos e muitas famílias mercadoras devem fortunas pela rara madeira que faz de seus navios navios-vivos. Suspeito que por detrás do medo criado sobre os moradores dos Ermos, exista toda uma civilização incrível, desenvolvida e avançada, uma espécie de Wakanda dos pântanos. Aposto muito no desenrolar desse ponto e é minha maior expectativa.


Agora, como escritora, O Navio Arcano é o paradidático perfeito para os adeptos da produção fantástica, ele não só nos leva em viagens incríveis, mas também é um berço de ensinamentos de técnicas, profundidade e desenvoltura de personagem e um enredo sólido e bem construído.


Minha dica é que: se está com dificuldade para montar, escrever e manter sua obra, leia O Navio Arcano, é um poço de inspiração e aprendizado. Além de possuir uma história avassaladora.

É isso! Espero que gostem e até a próxima!


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