• GM Rhaekyrion

Encantos No Berço do Mar

Minha vida virou do avesso. Dentro de três meses precisava me acostumar com mudanças bruscas demais para ser verdade. Ainda custo a acreditar na realidade, sinto ter mergulhado em um pesadelo, que não importa o quanto tente, jamais consigo despertar. Às vezes acredito que as coisas vão voltar ao normal, vai ser como era antes, mas parei de alimentar vis esperanças.


O passado não pode ser o presente, muito menos o futuro. Resta-me aceitar e essa é a pior parte dessa nova vida.


Mudei se casa e de escola, precisava enfrentar a nova turma e ritmo justamente no meio do ensino médio. Escolhi essa instituição com ambições sonhadoras, almejando me aproximar dos meus sonhos e, quem sabe, conseguir uma oportunidade milagrosa, que me leve de vez dessa cidade maldita.


Planejava viver esse momento ao seu lado, você sabe disso, mas o destino é cruel e não sei se voltarei a confiar nele novamente.


O primeiro dia foi horrível, como se não bastasse o alarde imprevisível sobre a nova aluna, precisei me apresentar no meio da sala. Quem faz isso em pleno século XXI? A abilolada da professora de física. Ela fez questão de perguntar de onde sou, porque quero ser aluna da Esplendor Conhecimento e quais são meus planos para o futuro.


Passada a vergonha obrigatória, escolhi a última cadeira da última fileira para me resguardar e reestabelecer as estruturas. Mal respirava com aqueles olhares sobre mim, já não bastasse a evidente discrepância fenotípica que carrego.


Apesar de tudo, pensei em fazer amigos novos, achar àqueles rejeitados como eu, mas se havia escondiam muito bem suas verdadeiras personalidades em suas carapaças status quo.


Sobrevivi a primeira semana bravamente, ou melhor, com a força da raiva. Não podia desistir por causa de terceiros, fiz uma promessa e pretendo cumpri-la, custe o que custar. Para completar o conjunto Família Tradicional Brasileira, ás quartas-feiras, antes da primeira aula, somos obrigados – porque é literalmente isso – a rezar um lindo pai nosso e outra ave maria. Gostaria de saber se entoariam um canto Umbanda, em respeito as demais etnias. Ou se faria a oração espírita. Claro que não, porque a Esplendor Conhecimento é um colégio laico, graças a Deus.

Recusei-me a me levantar para essa farsa em forma de oração na terceira semana de aula, a tal professora de Física chamou a minha atenção. Disse que é um desrespeito e eu perguntei a ela se por acaso ela está respeitando a minha escolha religiosa, inclusive a não crer em nada disso. Resultado: fui chamada na diretoria para ouvir a importância da boa conduta.


Acredito que se voltar a ser “rebelde” meus pais quem serão chamados aqui e depois dessa advertência minha vida se tornaria duas vezes pior.


Comecei a me arrepender dessa escolha ridícula. Só queria fazer teatro e dança, participar dos concursos literários internos, ser do clube de redação. A tal cultura a qual temos direito só está disponível nas escolas mais caras. Podem romantizar o quanto desejarem, o acesso a literatura e arte de qualidade é facilitado pelo capital, simples assim. As estatísticas estaduais e federais resultam de profissionais extremamente esforçados, que pensem em entregar ao país crianças melhores, mas jamais são exaltados.

Descobri cedo que “meus colegas” eram tão falsos quanto boa parte da população. Aqui somos representação da sociedade considerada adequada e só o fato de existir me desclassifica. Afinal, cabelos cacheados, corpo cheio e pele escura não condiz com a boa moça lisa, magra e branca. Tudo bem, vou aguentar as olhadelas, porque fiz uma promessa.


Depois do primeiro bimestre, recebi as primeiras notas e estava de acordo com o exigido por meus pais, felizmente. Os alimentei com seus números tolos, ganhando passe livre para alimentar verdadeiramente minha alma. Já faz três meses que sobrevivo nesse ninho de pavões exibidos e duvido que vão notar uma falta ou duas.


Pintei o cabelo de roxo, desejava fazê-lo há dias e finalmente tomei coragem. Quero ter um pedado Dela perto de mim e a coisa mais marcante eram suas mechas púrpuras. Falam que o luto se vai com o tempo, continuo esperando seu encerramento, pois ainda dói tanto quanto o dia do enterro.


Questionava o universo constantemente, me tiraram a única pessoa no mundo que me entendia e agora estava sozinha. Minha avó era o brilho da minha vida, temo o que ando sentindo, talvez deseje forte demais a encontrar nesse outro plano. Pelo menos terei paz.

Resolvi visitar o mar, a praia Brisa Leve é sempre quieta nas manhãs de inverno. Ouvir o mar me acalmava, permitia a plenitude necessária para escrever. Diante das ondas esverdeadas escrevia meus mundos e as pessoas que desejaria conhecer e ser dentro dele. Ali existia calma, existia felicidade.


Existe uma magia singular e poderosa no oceano. Não é à toa que a humanidade se viu guiada pelas águas salgadas por tantas gerações. Os íons, o sal, o som ritmado do quebrar da onda, o cheiro delicioso de maresia. Dizem que o mar é a cura da alma, um banho de mar alinha seus chacras e afasta energias ruins. Nunca fui muito dada a superstição ou crenças, mas nessa creio com todas as forças.


Minha avó também adorava a praia, desejava morar em uma casa a beira mar, onde pudesse dormir embalada pelo oceano. Desde pequena a ouvia prometer que um dia largaria seu apartamento na cidade para viver no interior litorâneo de Lagum. Apressava-me em dizer que a seguiria e ela sempre respondia:


— Como se eu fosse deixá-la aqui. Claro que iríamos juntas!


Mas meus tios e meu pai nunca permitiam. Arranjavam desculpa, a enchiam de medos bobos, chegavam a ameaçar. Disse diversas vezes que cuidaria dela, mas meu pai falava que eu não tinha tempo para isso.

As lágrimas mancharam o caderno, escorregando fartas pelas bochechas. A lembrança revive as dores e quando elas são sufocantes, só o choro alivia. Fechei o caderno e ergui o olhar para as águas, me sentindo atraída pelas ondas. Gostaria de mergulhar e de lá nunca mais sair. Talvez encontre uma sereia e ela tenha a bondade de me sequestrar.


Logo os soluços vieram e me vi envergonhada, sozinha e perdida, me sentindo abandonada. Queria sentir raiva da minha avó por ter me deixado, mas só lamentava a sua falta e sabia que a morte aliviou seu sofrimento. Amar tem dessas coisas, abdicar pelo bem do outro, mesmo doendo muito em nós.


Não fui ouvida por sereias, mas quem veio ao meu encontro tinha a mesma beleza de uma.

Encantos No Berço do Mar (Foto: Pinterest. Autor Desconhecido)

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© 2020, criado e editado por Clara Ciríaco.

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