• GM Rhaekyrion

Contos Sombrios: Aparição

Aconteceu ainda no verão, nos dias mais quentes. Preciso frisar essa data, quarta semana da estação, porque quero fingir que nada aconteceu e sei que quanto mais me recusar a aceitar, menos minha cabeça esquecerá. E tenho sérios problemas em controlar meu cérebro, ele é mais teimoso que uma mula velha, duvido ser capaz de pará-lo. Então, vou seguir o conselho da minha curandeira e continuar escrever nessas folhas, pelo menos me livro dos pensamentos. Espero...


Certo. Fui aprovado na Escola de Ensino Intermediário em Magia de Wattarny. Estava feliz, comemorativo. Talvez o termo certo fosse eufórico. Minha mãe estudou em Wattarny e ela foi uma das poucas que saiu da vila Lunar para encarar uma escola fora dos limites do nosso reino. Coisa de druida canídeo, não deixar o bando e essa balela toda. Agradeço por não ser um puro sangue, acho que me enterrariam na terra para não sair de casa.


Combinei com meus amigos uma pequena festinha no meu quintal. Porra, era verão, quer dizer, ainda é verão. Estava muito quente. Passamos o dia no rio, apostando corrida e perturbando Régulos, que detesta água - tudo porque um dia ele levou um susto e pensou que estava se afogando. A galera toda foi.


Sol, mergulhos, comida boa e algumas bebidas depois, estávamos capotados pelas redes e sofás da varanda até a noite começar a despontar no céu.


Uma lua minguante, bem clara e muito tímida, surgia, despertando-me de qualquer cansaço e me entregando as doses conhecidas da adrenalina, fonte da minha insônia diária. Parece até um feitiço, uma, perdoe-me Kanum, maldição. Não sei explicar. Por mais cansado que esteja, se dormi ou não de tarde, é só o sol desaparecer, que a disposição chega. O mundo ideal, para mim, seria noturno. Aulas à noite, treinos pela madrugada. Dizem que a rotina nos leva ao costume e uma adquirido as coisas se tornam automáticas. Morrerei afirmando que nunca me acostumarei a acordar cedo, muito menos a estudar de manhã.


Mesmo desperto, estava com preguiça de me levantar. Karina dormia ao meu lado, lembro muito pouco de termos deitado juntos, mesmo tendo consciência dos beijos trocados e amassos escondidos na Sakura dos Segredos.


Aspirava seu perfume ácido, que me lembrava eucalipto, buscando resquícios do sonho que estava me envolvendo outrora, corria em um gramado verdinho, bem aparado e com cheiro de terra molhada muito gostoso. Gostaria de voltar à esse sonho e foi nesse ninar que ouvi um assobio.


Primeiro, quero explicar que sou curioso. Segundo: o assobio não era comum. Não soava como um assobio de verdade tende a soar, seja humano ou animal. Tinha uma espécie de sibilar.


Logicamente, demorei para tomar a decisão que tomei, tentei esquecer o som. Eu sei que deveria ter ignorado. Agora, pensando friamente, entendo o quanto precisava ignorar àquele som. Mas diga isso ao meu cérebro teimoso.


Feito um idiota – porque só um idiota faria o que fiz – me levantei com muito cuidado, deixando a garota adormecida na rede e segui o assobio.


Parecia vir da água, ou da floresta, como se estivesse em todo lugar e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum. Aproximei-me do rio, analisando o som com mais atenção, fingia caminhar pela margem distraído, farejando os ventos montanheses deleitosamente.


Uma tensão pairava no ar, como se alguém me observasse e pensei ser minha mãe. Ela vinha me infernizando a vida por causa do meu flerte com Karina. Ficava me rondando, tentando me afastar da menina. Seu medo de ser avó é quase enlouquecedor, mas sei ser precavido.


Continuava fingindo distração, mantendo minha encenação ridícula até ver uma presença humanoide do outro lado da margem. Por Kanum, acho que vou parar de escrever diários, sério. Não faz o menor sentido registrar isso.


Estou me borrando de medo só de lembrar daquela presença. Preciso terminar, colocar para fora essa história. Espero que a deusa me ajude.


Era uma mulher, inteira trajando um vestido azulado tremulante, com o corpo coberto por uma áurea branca típica dos fantasmas e o rosto parcialmente escondido por uma máscara de ferro, rodeada de espinhos disformes.


Encarei a menina, parecia uma criança de, sei lá, uns dose anos – e longe não consegui entender direito suas feições, ainda mais no escuro –, com o coração aos saltos. Pensei ter me enganado com a pouca luz ambiente, quem dera estivesse apenas me confundido.


Era de fato uma Aparição.

Contos Sombrios: Aparição (Foto: Pinterest - Autor Desconhecido)

Imaginei inúmeras formas para as tais Aparições, que são muito diferentes dos fantasmas. Pode parecer tolice temer algo que é praticamente uma lenda, não conheço alguém que viu uma de verdade e os poucos que falam ter conhecido, não estão entre nós para contar a história.


As Aparições são espíritos perturbados ou amaldiçoados, que tendem a buscar as almas de quem as fizeram sofrer, mesmo depois de reencarnadas. Diz a lenda que uma Aparição pode chegar a destruir a psiquê, alterando a personalidade ou cortando as ligações sensíveis da mana cerebral.


Para um druida, como eu, seria a morte. Não conseguiria mais me conectar com o meu Animal Espiritual, estaria fadado a me manter na forma humana para sempre. Isso seria o mesmo que a morte, enlouqueceria sem a natureza com a qual nasci.


Minha deusa Kanum, eu sei que estou exagerando, mas eu vi uma Aparição e estou com medo de ter sido marcado por ela.

Faz cinco dias que encontrei a Aparição, ainda não consigo dormir sem vê-la nos meus sonhos. Contei a Faby, minha prima, o que tinha acontecido e ela riu da minha cara.


Anotando aqui a promessa de nunca mais contar algo desse tipo para aquela desgraçada. Chamou-me de cagão! Duvido existir alguém corajoso o bastante para enfrentar uma barra dessas. Uma Aparição? Com uma máscara coberta de ferro? Quem enfrentaria algo assim sem medo?


Ainda disse que estou inventando. Independente da opinião de Faby, tenho certeza do que vi. Espero ter sido algo pontual e que eu não seja uma reencarnação de alguém que fez essa...


Um som esquisito ecoou pelo cômodo, duas leves batidas na janela, um sussurro baixinho, um assobio esquisito. Passos apressados pelo cômodo, livros espalhados pelo chão. O coração martelando na garganta e o medro paralisando os músculos.

Não deveria nem abrir esse diário. Vou queimá-lo o mais rápido que conseguir, mas antes tenho que deixar isso bem anotado. Talvez prefira guardar essas linhas, devo ter um lado acumulador que nunca acessei, até agora.


A Aparição surgiu na janela do meu quarto ontem. Pensei que fosse morrer, juro, mas ela só me encarou e foi embora.


Acho que estou ficando um pouco louco, devem ser os elixires do sono que venho tomando, a curandeira trocou a fórmula e incluiu outro tratamento de chás. Pode ser efeito colateral desse coquetel fitoterápico.


Independente da razão, a Aparição estava na minha janela e eu acho que ela realmente me conhecia. Sério, não estou ficando louco, eu sei que não estou perdendo a sanidade. Ela me olhou, diretamente nos olhos, bem de pertinho.


Ela era uma garota de, sei lá, uns quinze anos, com o corpo magro, o rosto bem desenhado, quase como uma ninfa – será que é uma ninfa? – e sua máscara continha ferros mesmo. Vários deles, feito um porco-espinho.


Cheirava a mofo, tinha os olhos cinzas, quase brancos, como se suas írises estivessem transparentes, refletindo a luz ambiente, os permitindo oscilar em alguns tons de cores.

O estranho era que o medo me dava uma espécie de prazer.


Era gelada, como se fosse capaz de carregar o vento do inverno consigo, e seus cabelos eram azulados, assanhados e lisos, como quem acaba de acordar.


A Aparição me encarava intensamente, parecia ver o mais profundo dos meus sentimentos, assistindo a minha alma através daquelas órbitas de vidro. Parecia interessada, curiosa.


O medo me fez derrubar os livros pousados sobre a mesa de escrever, me desequilibrou e tratou de me roubar o ar. Mantive-me a mirando, incapaz de desviar, pensando se seria através da troca de olhares que ela romperia as conduções sensíveis da mana. Mas nada aconteceu, ela apenas piscou lentamente, feito um gato doméstico e desapareceu.


A parte difícil foi me recompor e está sendo ainda mais difícil relatar o ocorrido nesse diário. Gostaria de esquecê-la, porém, duvido ser capaz de apagar tamanho evento de minhas memórias.


Esse tem sido um ano de surpresas, só espero que essa nova “amiga” não venha me visitar em Wattarny.



Contos Sombrios: Aparição (Foto: Pinterest - Autor Desconhecido)

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© 2020, criado e editado por Clara Ciríaco.

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