• GM Rhaekyrion

Conto Fantástico: A Esperança De Proklyatia

O homem foi colocado sentado em uma poltrona confortável, tremia mais do que os ramos de trigo no vento, parecia alguém que foi abandonado pelado nos campos gelados de Yaga, onde a neve se acumula aos montes nas árvores e arbustos, formando verdadeiros casacos alvos sobre a vegetação, estendendo-se pelo piso em um tapete branco, mas estava bem seguro na sala quente do Quartel de Sirë.


— Senhor...


— Orley, minha Senhora. S-sou Orley, só Orley. Um homem comum.


— Tudo bem, Orley. Pode me chamar de Nimerya.


— N-não, Senhora. Não tenho esse direito, por favor, não posso fazer isso. — o homem estende as mãos sobre a mesa, juntando-as em reza, implorando por algo que não precisava, mas se viu na necessidade de fazê-lo.


— Tudo bem, Orley, não precisa se preocupar. Retrate-se da forma que preferir, só se acalme.


Nimerya troca olhares cúmplices com a General Samantha, em uma mensagem clara de que ninguém deve interrompê-los, mesmo se aquele um a sua frente iniciar uma orquestra de berros e súplicas desesperadas. A general se retirou lentamente, preferindo resguardar o exterior do ambiente. Nimerya apenas cruzou as pernas lentamente, respirou fundo e esperou Orley encará-la. Não entendia como um homem tão imenso fosse capaz de parecer menor que uma criança. O medo o dobrava feito folhas de palmeira e preferiu não especular sozinha as razões.


— Orley, precisa beber algo?


— Não, Senhora Yondo Nén.


— Coma os bolinhos, pelo menos. Foi uma viagem longa. — Nimerya escolheu o sorriso mais gentil de seu catálogo, exalando a sua versão mais materna e confiável.


Orley hesitou, mas aceitou a comida, experimentando no começo e logo devorando cinco bolinhos de arroz, enquanto chorava. Nimerya segurou o revirar dos olhos, respirando bem devagar e paciente. Queria partir para as perguntas imediatamente, mas precisava esperar a histeria do ex-soldado passar e nada como um extrato de cidreira e canabis – misturadas ao alimento – para surtir o efeito desejado.

Longos dez minutos depois, Orley a sorriu grato, mostrando a negligência em seus dentes amarelados, barba desgrenhada e cabelos cheios sem corte aparente. A maioria dos soldados nortenhos mantém um padrão de cabelo baixo e barba bem feita, mas Orley estava desesperado em romper seus laços com as lembranças do seu tempo no exército Proklyatia, em Whispers.


— Agradeço a hospitalidade, Senhora. Peço desculpas por meus modos.

— Minha mãe costumava dizer, Orley, que os famintos não precisam pedir perdão e nem permissão. Então, pode esquecer essas formalidades.


— Ainda assim, sinto-me totalmente descondizente com o que sou de fato, Senhora. Despois de tanto... tanto tempo estudando... — as lágrimas brotam fáceis, irritando Nimerya.


— Por favor, Orley, não torne a se desculpar. Está em Sirë agora, protegido. Quero que esqueça esses detalhes por enquanto.


O soldado pareceu ponderar as palavras da mulher, concordando com a cabeça logo depois. Nimerya organizou as palavras cuidadosamente e quando estava prestes a fazer a primeira pergunta, o homem se adiantou:


— Sei a razão de estar aqui, Senhora. Imagino que queira saber o que aconteceu aos magos de Proklyatia. Na noite mais quente e terrível de Ioverlar.


Ótimo, isso poupa meu tempo”, pensou Nimerya. Encostou-se calmamente na cadeira, bebericou a cerveja e ouviu. A chacina ocorrida há quase dois meses, nos terrenos de Whispers, tinha nome e causa, precisava saber quem e por quê.

— Era Nanunt, Senhora. Uma das noites mais quentes da estação, pensei que derreteria dentro da armadura. Estava tão calmo... — Orly suspirou. — Até hoje não consigo me perdoar pelo fracasso. Fui escalado como melhor batedor do meu pelotão, não havia som ou movimento capaz de escapar dos meus sentidos. Costumava me sentir como um lobo, juro que podia ouvir o bater das asas do menor dos insetos.


— Acredito em você, Orly. De verdade. — Nimerya o incentivou, mas Orly parecia alheio a ela. Sua alma mergulhou no passado, na noite da morte de Valén Proklyatia, o líder do clã dos magos elementais e a chacina ocorrida em sua vila.


Diziam as cartas se tratar de uma espécie de maldição, obra de criaturas das trevas, que se alimentam de destruição e sangue de inocentes. Só recebia cartas sobre esse assunto, precisava se retratar aos seus aliados antes que comecem a se aglomerar em sua porta.


— Estava claro, a lua fez esse favor. Terminei meu último turno e trocava a vigia quando senti algo esquisito no peito. Pensei ser cansaço, fazia dias que o Senhor Valén dobrou a quantidade de patrulhas e vigias. Senhora, juro, não sou um soldado fofoqueiro, para mim só importa o dever cumprido. Não tinha a menor ideia de qual ameaça a família do Senhor Valén e, veja bem, eles são poderosos. Até hoje me pergunto a razão de um exército, quando possuem a magia ao seu favor. Juro pelo nome da Deusa, que nunca me meti nesses assuntos, mesmo curioso.


“Fico... quer dizer... ficava feliz em cumpri meu trabalho. Só que achei o meu Senhor Valén muito esquisito, era compulsivo seu comportamento. Tinha medo e era um temor além do considerado natural. Parecia em dívida, sabe? Quando pedimos moedas emprestadas aos anões e recebemos uma carta com a marca da cobrança. Sei que a Senhora não deve imaginar, mas os mais pobres, que tentam subir na vida, fazem esses empréstimos e, bem, Valén parecia alguém que devia e muito. Só não imaginava ser por razões tão distantes do financeiro.


Como disse, estava quente e muito abafado. Foi um alívio sem tamanho tirar a armadura, estava só com a cota de malha, pronto para colher minhas coisas e partir para o meu lar. Bolsa pronta, botas... minha Deusa, acho que nunca esquecerei essa cena. Foi a pressa, Senhora Yondo Nén, queria muito voltar para casa, ver meu marido e abraçar nosso filho, queria muito. Se tivesse esperado dois minutos, sido mais atento... se... se tivesse verificado o perímetro noroeste. Ai minha Deusa, por que sobrevivi?”


Nimerya tomou outro gole da cerveja, anotando mentalmente os detalhes da história. Sentia-se terrível por não se apiedar o suficiente para acalmá-lo com palavras de apoio, apenas observava, em silêncio e analítica, o desenrolar desse enredo fascinante.


Orly continuou:


— Atravessava o pátio de treinos, rumo aos portões leste, quando ouvi um zumbido baixinho de flechas, o som inconfundível de lâmina desembainhada e a intuição de que algo estava muito errado quase me sufocando. Pensei em esquecer esse problema, estava cansado, foram dias exaustivos, mas não consegui ignorar os instintos. Voltei aos corredores do Quartel fingindo ter esquecido algum pertence e... Deusa, me ajude... — mais lágrimas. — o sangue... tingida o chão, as paredes, as armas. Todos mortos...


“Corpos espalhados pelas salas, até os mais novos, jovens de doze anos, que começaram a treinar naquela semana, tão novos. Todos morreram. Só os cães foram poupados e mesmo eles se encolhiam em suas celas. Inacreditável.”

Orly enxugou o rosto apressado, comeu outro bolinho e continuou:


— Peguei minha espada o mais rápido que consegui, sai dali direto às torres de vigia. Mais corpos. O viveiro das aves mensageiras explodiu em um brilho cinza fantasmagórico, queimou inteira, como se um dragão tivesse cuspido seu bafo flamejante direto na construção. As tochas tomaram um tom cinza escuro, parecia, minha Deusa, parecia o Mar dos Lamentos.


“Cheguei a pensar que a Ceifadora veio nos levar, que, sei lá, os mortos despertaram. Não sei dizer o que se passou pela minha cabeça, mas foi horrível. O cheiro de fuligem, sangue e morte, juro que era isso, morte. Parecia uma barata tonta, correndo de lá para cá e achando meus companheiros desfalecidos, cheguei a pensar que eu quem tinha morrido, ou sucumbido a uma ilusão dos Hipatia. Ridículo, não acha, Senhora?”


Orly encarou Nimerya com olhos arregalados. A Senhora de Sirë pensou que poderia continuar em silencio, mas o homem esperava uma reação de sua parte.


— Terrível. — disse em um suspiro pesado. — Você foi muito corajoso.


— Coragem? — sorrir descrente. — Foi sobrevivência, Senhora. Não existia coragem em minhas veias, só o desespero. O que vi não consegue ser posto em palavras. Já imaginou alguém cortar a magia? Sim, cortá-la, como se fosse palpável. A mulher cortava a magia com uma espada das trevas. Aquilo era obra das artes sombrias, não há ferro ou aço capaz de criar uma arma como àquela! Nem os dragões!


— Mulher? Por favor, Orly, poderia falar com calma sobre quem...


— Belata. Esse era o nome dela. Belata... — Orly a interrompe. Apoiando as mãos sobre a mesa o homem se debruça sobre o móvel, Nimerya estreitou os olhos. — Os olhos dela eram a morte. Tinham uma dor... um horror. Eram tão... tão... sombrios.

“Nunca conheci alguém com a alma tão corrompida como a dela. Parecia não ter coração. Como se uma maldição a dominasse. Era humana, se quer saber, Senhora Yondo Nén. Muito humana, mas só em aparência. Seu interior estava consumido pelo mal mais obscuro existente. Tive medo, muito medo. Escondi-me atrás da vegetação quando Belata saltava anormalmente entre os magos, mais alto do que qualquer bom arqueiro, cortando garganta como quem dobra roupas, Senhora. Cabeças voavam, o chão era uma papa de sangue.


“Os gritos ecoaram pelos reinos, tenho certeza. Ela tinha uma áurea tão intensa, que a envolvia feito uma nuvem, tão escura quanto a noite sem lua. Era horrendo, Senhora Yondo Nén. Não me pergunte como, onde, não faço a menor ideia de quem seja essa mulher, mas...”


Duas batidas leves na porta interromperam a conversa. Nimerya desviou o olhar para a maçaneta, ordenando que entrem. O relato estava interessante, mas duvidava que fosse real, aquele homem estava muito alterado, a emoção pode causar certos... excessos nas pessoas.


A General Samantha se revelou aos dois, o rosto lívido e pálido, preocupando a Senhora de Sirë.


— Fale.


— Senhora, perdoe-me, é urgente. Uma mulher se diz ser a Senhora Proklyatia e pede uma audiência.


Nimerya estreitou as sobrancelhas curiosa, seu olhar caindo sobre Orly discretamente. O homem se encolheu na cadeira, o sorriso tomando conta de seu rosto.


— Minha Deusa... não fui o único. Ainda há esperança. — disse Orly.


Conto Fantástico: A Esperança De Proklyatia (Foto: Pinterest - Autor desconhecido)


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© 2020, criado e editado por Clara Ciríaco.

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