• GM Rhaekyrion

A VIDA SÓ TEM SENTINDO QUANDO TEMOS COM QUEM VIVÊ-LA

Perto de casa... Muito mais do que imaginei estar e terrivelmente próxima das milhares de realidades que aprisionei em um baú bem lacrado, esperando o tempo certo para serem revistas.


Depois desses anos longe a saudade ardida e pungente, se tornou macerada, uma mera recordação nostálgica dos primeiros dias distante do meu lar. Talvez seja o efeito da responsabilidade, talvez seja apenas uma sensação estranha em uma noite fria como essa. Ou talvez seja o efeito astral da floresta que me cerca, o lugar onde as lendas foram criadas e a áurea mágica é tão palpável quanto a taça que seguro entre os dedos.

Melhor crer que são devaneios. Seria angustiante admitir que estou entrando em um estado de ansiedade constante, um monte de nervos agitados, atiçados ao mesmo tempo, rápido demais, elaborando situações diversas, com uma frequência considerada compulsiva.


Tudo porque precisarei encarar meu pai, meu lar, e provavelmente precisarei ficar. Quando parti a vontade de voltar era uma ferida irritante e constante, mas fui me envolvendo nessa loucura, no trabalho que me incumbi a desempenhar, até que a falta do meu lar não mais existia. O que direi a ele?


Suspiro pesadamente. Sou ingrata, hipócrita e, provavelmente, muito estúpida, para dar razão aos pensamentos pequeninos sobre uma liberdade, que me cansaria com o passar o tempo e me faria olhar para trás e me arrepender. "Será?", penso.


Encaro o vinho tinto entre minhas mãos, a varanda daquela pequena fazenda é simplesmente perfeita, dando visão ao mundo sombrio, cheio de formas desconexas formadas pela floresta. Gostaria de acordar todas as manhãs assim? Sem maiores preocupações além de escolher o que será servido no almoço ou no jantar?


Consigo ouvir uma voz muito pequenina ralhando: Vai negar seu destino por causa de um impulso?


Será que é impulso? Ou estou realmente mudando e não mais desejo seguir o que meu pai me ensinou a ser?


Torso o lábio em uma careta desgostosa. Sei que ele ficará decepcionado, pronto para me desconsiderar sua filha, me expulsará de seus domínios e fingirá que nunca existi. Ou ele me entenderia de fato?


Não consigo negar a crescente angústia, posso tentar disfarçar, mas recusá-la é quase impossível. Vejo a paisagem típica de minha terra crescendo a cada cidade que passamos e quanto mais o cenário me lembra minha casa, mais angustiada fico.


Respiro fundo, olho as estrelas. Lembro do sinal mandado pelo destino, dos dias de risadas, dos momentos de tensão e de como quase morri diversas vezes nessa viagem. Sei que faço parte de algo maior que meus anseios, estou duas vezes amarrada a essa profecia, que um dia foi (não! Ainda é!) meu sonho e que começava a se tornar uma pedra incômoda dentro da bota.


Volto a olhar o vinho, as corujas começaram a cantar, os grilos serviam de orquestra e eu só pensava nos tambores agitados quando meu nome fosse anunciado na entrada de Spenyn, quando passasse pelas ruas, porque represento mais do que a mim mesma e não sei mais se estou pronta para abdicar tanto.


Por que estaria desejando ser apenas uma moça comum, prensa em problemas comuns, imaginando se tal mocinho me notaria e desejaria juntar suas trouxas com as minhas, para sermos um casal comum, em uma casa simples, esperando nossa criança, que igualmente repetiria o ciclo? Sem títulos, sem deveres, sem acordos, sem política. Engulo difícil.


"Estou a oferecendo meu colar, porque a amo e quero que sejamos mais que amantes ousados invadindo quartos a noite", disse Ele há duas semanas.


Abaixo a cabeça com dor, sentindo o peito descompassar.


"Mas... não podemos", respondi contra meus próprios sentimentos.


"Por que não?", ele perguntou. Expliquei mais uma vez quais são as razões e ele me olhou com tanta dor que precisei me apoiar no objeto mais próximo ou desmaiaria. O vi ir embora pisando forte no chão, totalmente resoluto. Senti imediatamente que o perdi. As palavras se calaram em minha garganta, estava devastada. Eu o neguei. Por medo, por pensar demais e por, principalmente, jamais dar ouvidos ao que sinto.


Aperto a taça entre os dedos o mais forte que consigo, colhendo falanges doloridas quando meus músculos reclamaram. Olho as estrelas, olho aquele céu maravilhoso e penso como seria magnífico se não existisse nada que me prendesse ao que represento. Olho para mim, para minhas feições no reflexo espelhado do vinho - ou é o que tento - e penso quem sou, quem quero ser e por qual razão me doía tanto.


Então um farfalhar breve entre a vegetação me chama a atenção, recuo silenciosa, espiando o invasor, mas quem vejo me deixa trêmula. Era você, vindo de sabe-se lá os deuses onde, com o rosto sério e a roupa desalinhada. O ciúme me queimou as vísceras, mas quando penso em tirar satisfação lembro...


"Não somos mais nada"


Minha língua incha na boca, meus olhos me traem e eu me ajoelho na sacada, perdendo a força das pernas. Peço a Deusa um conselho, mas ela também resolveu se calar. Essa história tinha rendido o necessário. E eu tomei a minha decisão. Respiro fundo, evitando os sons e sei que não existiria razão, vida ou sentido, sem consertar a idiotice que fiz.


A vida só tem sentindo quanto temos com quem vivê-la”, dizia minha avó entre as fumaças coloridas de seu quarto de poções. Sempre pensei que ela falava por falar, apenas para parecer uma sábia. Nunca vi tanta razão em suas palavras.


Obrigo-me a me recompor, limpo o rosto molhado e coloco uma roupa mais adequada. Olho-me no espelho, firmando quem sou de verdade e enxergando o que desejo realmente, deixando meu coração falar. Ignorando as limitações de terceiros e firmando bem as bestas de caça nos apoiadores.


Saio do quarto feito um furacão desgovernado, pronta para encontrar minha razão e o destino que eu desejo escrever para mim.


A VIDA SÓ TEM SENTINDO QUANDO TEMOS COM QUEM VIVÊ-LA

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© 2020, criado e editado por Clara Ciríaco.

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