• GM Rhaekyrion

A ferida latente, que me leva a decadência

Atualizado: 16 de Dez de 2020

Pensei que nunca mais me permitiria sentir o que agora constato estar palpitando em meu peito. É quase irônico olhar para mim, para minha história e me permitir ser alguém normal. Alguém que pode se entregar a um sentimento tão nobre e tão corrompível, capaz de destruir impérios.


Lembro de uma pessoa que riria de mim agora e me obrigaria a me olhar no espelho e repetir o que sou em voz alta.


Sempre serei o agrado de alguém, que gosta da minha atenção até que seu interesse se vá. Restando lembranças de um passado que não volta e que é muito mais prazeroso que o presente. Fico pensando se a minha felicidade não passa de retalhos recordados sobre momentos que resolvi pintar de rosa.


Às vezes penso se realmente existiram felicidades tão doces quanto me recordo, ou foram sonhos elaborados de projeções sentimentais que meu cérebro criou para cobri o espaço destroçado em meu peito. Para sanar a ferida latente e dilacerada, que me leva a essa decadência, pelo menos uma vez por mês.


Encaro a garrafa de vinho, desejando me afogar em seu interior, mergulhar no tinto brilhoso de seu líquido e ali encontrar passagem para o Mar dos Lamentos, onde, quem sabe, me entendo com a Ceifadora e ache a paz.


Pensamentos malucos para um pai. Deveria engolir meu drama e pensar no que realmente importa nessa existência, pensar em minha filha; em entregar a ela as coisas que me foram tiradas. Dar-lhe a segurança da minha existência, para que seja seu porto seguro eterno, a certeza de um lugar para pertencer, para que nunca duvide de quem é e nem de onde veio. E a tranquilidade sentimental, onde traumas como os meus jamais passem em sua cabeça e a impeça de amar, de formar família e de querer agregar pessoas em seu mundo.


Posso dizer que sou um homem conhecido, também conheço muitas pessoas, sei em que porta bater caso precise de algo, mas ainda me sinto sozinho. É muito estranho ouvir a conversa frenética ao meu redor, as risadas, a música, a dança, toda aquela alegria, e encará-la como se não valesse a pena.


Estou me desgraçando, eu sei. Talvez morra mesmo, de tanto beber, ou de depressão. Dizem os curandeiros que a morte mais sofrida é aquela que acontece em vida. Há mais razão nessas palavras do que imaginava; como gostaria que fossem mentiras muito mal contadas, mas olho para mim, para o estado em que estou e percebo que meu maior azar foi existir. Essa pedra em meu braço não passa de uma materialização de tudo aquilo já presente em meu corpo. Não importa se me cortarem, a escuridão que tinge minha pele já engoliu meu coração e será assim até o fim.


A entidade que fala em minha cabeça foi esperta em me escolher, ela sentiu esse mal, essa corrupção. Não posso culpá-la.


Bebo o resto do vinho, apoiando a garrafa ao meu lado, erguendo a vista para a lagoa brilhosa, imaginando uma dessas ninfas d’água, ou uma sereia, e quem sabe me perder em seus feitiços milenares, onde desaparecesse desse plano para se sustentar nas lendas.


Suspiro pesadamente. Sou tão burro, tão absurdamente burro. A primeira regra para um Servo do Prazer é não se apaixonar em hipótese alguma, nunca. Agora, olhe onde estou. Apaixonado pela segunda vez, não pela mesma pessoa, mas por alguém que deveria permanecer apenas no passado, como uma nostalgia boa e prazerosa. Mas que virou realidade. Se materializou diante de mim, amarrando-me em sua história, revelando elementos de uma vida que eu pensei ter esquecido.


O que eu faço agora? Talvez fosse melhor só seguir adiante, engolir cada pedacinho de sentimento, do mesmo jeito que estou o fazendo durante todo esse tempo, e manter o frio sorriso nos lábios, protegido de perguntas, de mais aproximação. Fiz isso por tantos anos, por que agora seria diferente?


Seu cheiro... seu toque...


Cerros os punhos, a garganta é uma massa ácida sofrida, que queima até o estômago, revirando minhas vísceras, causando refluxo. Fecho os olhos sofridamente, desejando, com todas as forças, saber o que desejo, me permitir fazer o que desejo, mas ciente de que o certo é o oposto do que fala meu coração.


Talvez eu esteja cansado demais, precise tomar um ar, esteja confundindo as coisas e criando tempestade em um copo d’água. Costumo ser exagerado mesmo.

Porém, eu não estou fingindo o que sinto, muito menos crio emoções para me castigar. Eu sei que a amo e sei mais ainda que não sou retribuído.


Só existe um caminho seguro... Só não sei se tenho coragem de segui-lo...


A ferida latente, que me leva a decadência (pinterest)

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© 2020, criado e editado por Clara Ciríaco.

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